Por que Sam Raimi não deveria dirigir Doutor Estranho 2


Conhecido pela trilogia do Homem-Aranha, cineasta tem um estilo particular que precisará ser moldado para se encaixar no MCU

Depois da saída de Scott Derickson da direção de Doutor Estranho 2, a especulação de que Sam Raimi estaria finalizando negociações para comandar o filme deixou muitos fãs animados, principalmente porque o cineasta foi responsável por um dos primeiros longas de herói que explodiu nos cinemas, o Homem-Aranha de Tobey Maguire. Mas a saída de Derickson devido a diferenças criativas com o estúdio e diversos fatores da história de Raimi no cinema indicam que a parceria com o MCU está longe de ser certeira. 

Em 1985, Sam Raimi lançou seu terceiro longa, Onda de Crime, e seu primeiro trabalho dirigindo um filme cujo roteiro não foi escrito exclusivamente por ele mesmo. Para a comédia de horror, o diretor, que já havia adquirido certa fama por Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (mais conhecido como Evil Dead), se uniu a duas das mentes mais brilhantes do cinema: Joel e Ethan Coen. Surpreendentemente, a união de Raimi e os irmãos Coen foi um fracasso comercial e de crítica, algo atribuído, simplesmente, à interferência do estúdio. Sobre a experiência, o diretor explicou à Maitland McDonagh [via LIL]:

“Eles me intimidaram para fora do roteiro que eu queria. Eles intimidaram o ator que eu queria para fora do papel principal. Eles intimidaram meu compositor para fora do filme e colocaram uma trilha engraçadinha. Eles dispensaram meu editor e montaram eles mesmos. Eles controlaram a mixagem. A experiência inteira foi simplesmente horrível”. 

Já se passaram 35 anos da experiência e Raimi certamente é um profissional diferente hoje em dia, já mais acostumado a trabalhar com diversas influências e estúdios. Mas é importante lembrar os casos em que cineastas que têm um estilo claramente definido e pessoal sofreram com exigências externas. Quando o diretor que comandou a trilogia do Homem-Aranha ameaça entrar no guarda-chuva do Marvel Studios, é preciso entender que todos os seus traços serão controlados por uma coleira relativamente curta. 

Um caso semelhante foi visto recentemente, quando Edgar Wright (Baby Driver: Em Ritmo de Fuga) abandonou a direção de Homem-Formiga. Aclamado por seu trabalho em Todo Mundo Quase Morto, Wright foi contratado em 2006 e desenvolveu diversos roteiros para o longa da Marvel até 2014, quando o estúdio e o diretor anunciaram sua saída do projeto devido à já tradicional explicação de “diferenças criativas”. À IW, o diretor descreveu a experiência: “Queria fazer um filme da Marvel, mas acho que eles não queriam fazer um filme do Edgar Wright”. Ele continuou: “de repente você se torna só um diretor contratado, menos investido emocionalmente, e começa a pensar por que você está lá”.  

Não houve uma explicação clara do que aconteceu entre Scott Derickson e o Marvel Studios, mas uma das maiores especulações aponta para o tom do filme. Enquanto o ex-diretor descreveu a sequência como “o primeiro filme assustador do MCU”, o presidente do estúdio, Kevin Feige, descreveu uma produção alinhada ao tom de Indiana Jones e Gremlins. Se este foi o motivo da separação, é curioso que o MCU tenha se aproximado de um dos diretores mais conhecidos do terror, e já é possível imaginar quanto o estúdio teria que interferir na visão de Raimi. 

As condições do MCU

Além de Onda de Crime, existe outro filme no currículo de Sam Raimi que sofreu com as exigências dos produtores: Homem-Aranha 3. Também mal-recebido pela crítica, um dos motivos pelos quais o terceiro longa não chega ao nível dos dois primeiros é a quantidade de vilões, e especificamente a introdução apressada de um dos mais adorados inimigos do Homem-Aranha, Venom. Isso aconteceu, principalmente, porque Raimi simplesmente não queria o personagem no filme. 

Enquanto os dois primeiros filmes da trilogia tiveram personagens queridos do diretor, e escolhidos a dedo, a inclusão de Venom veio absolutamente pela pressão dos fãs. Segundo o diretor, o presidente da Marvel na época, Avi Arad, argumentou que Raimi não estava ouvindo o público. O mesmo aconteceu com a introdução de uma versão fraca de Gwen Stacy, cuja presença veio da pressão da produtora Laura Ziskin. No fim das contas, o filme terminou um produto com muito menos envolvimento pessoal de Raimi. 

Anos mais tarde, o diretor deu uma declaração explicando todo o caso, que deixa muito claro o motivo pelo qual ele não é a escolha certa ao MCU [via Collider]: “tentei fazer funcionar, mas eu não acreditava realmente nos personagens, e não daria para esconder isso dos fãs de Homem-Aranha. Se o diretor não ama algo, é errado tentar fazer quando tantas outras pessoas amam”. Considerando quanto o MCU se baseia no amor de fãs, é bem possível imaginar um cenário em que a visão de Raimi seja menos importante para Feige do que as expectativas do público e do estúdio. 

Muito tempo se passou desde então, e talvez Raimi saiba lidar com as pressões exteriores, mas o MCU tem um controle criativo que está na base da sua existência. Com ligações entre todos os seus filmes, cada uma das produções precisa ser encaixada em um molde específico, que faça sentido com o universo compartilhado entre todos os personagens. Isso, por si só, formaria um cenário de exigências altas, mas Doutor Estranho 2 terá uma responsabilidade ainda maior em ligar produções cinematográficas com as séries do Disney+. Como Kevin Feige já explicou, a sequência do filme de Stephen Strange seguirá os eventos de WandaVision, contando com presença da Feiticeira Escarlate, e terá que abrir portas para a trama de Loki. São muitas exigências a serem cumpridas. 

Os Diretores do Marvel Studios

Atualmente, o Marvel Studios é mais conhecida por lançar a carreira de diretores menos conhecidos e mais aclamados em circuitos menores, como foi o caso de Ryan Coogler (Pantera Negra), James Gunn (Esquadrão Suicida) e Taika Waititi (Thor: Ragnarok). Enquanto estes casos se tornaram alguns dos melhores exemplos de produções do MCU, o estúdio mostrou uma trajetória muito clara de se afastar de diretores mais estabelecidos, algo que fez parte da estratégia no começo da década, com Kenneth Branagh (Thor) e Joe Johnston (Capitão América: O Primeiro Vingador). Enquanto isso pode apontar por um movimento de entregar mais liberdade aos seus diretores, outra perspectiva é de que a produtora procura nomes que estariam mais dispostos a servir o seu material, do que priorizar uma visão particular. 

O caso de Sam Raimi seria certamente inédito. Enquanto ele teve um período de ouro na época de Homem-Aranha, Raimi passou os últimos anos mais envolvido na produção de longas, e não é um nome tão conhecido na nova geração de fãs de heróis. Mesmo assim, seu nome continua clássico na indústria e ele seria o primeiro cineasta a entrar no MCU com blockbusters gigantes na bagagem. Mesmo sem ajuste de inflação, Homem-Aranha 3 teve uma bilheteria maior que Homem-Aranha: De Volta ao Lar, Guardiões da Galáxia Vol. 2 e Thor: Ragnarok. Ajustados para a inflação, o primeiro filme do Teioso de Raimi teve uma arrecadação muito próxima a Homem de Ferro 3. Enquanto este cenário aponta para uma escalação singular no MCU, seria curioso observar como o estúdio lidaria com um equilíbrio diferente do tradicional.

Sam Raimi é indiscutivelmente um diretor único. Seu estilo de filmagem, a especificidade do seu humor e suas referências são de um universo particular que precisaria ser filtrado intensamente para fazer sentido no MCU. O questionamento da contratação não vem de uma dúvida quanto à sua capacidade, mas do desejo de que diretores mantenham sua visão pessoal intacta, e possam exercer seu potencial sem amarras de um estúdio que funciona, principalmente, por causa de um universo compartilhado.

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